21/10/2026
❤️ OS NOSSOS ADOTANTES SÃO ESPECIAIS
Ao longo destes anos temos tido a felicidade de encontrar adotantes extraordinários. Pessoas que dão uma oportunidade a animais que, por serem mais velhos, terem uma doença crónica ou simplesmente não corresponderem àquilo que a maioria procura, acabam tantas vezes esquecidos. A Júlia é uma dessas pessoas. E hoje queremos falar-vos dela, da Anabela e de um gato muito especial que alguns de vocês ainda se devem lembrar: o António Augusto.
O António Augusto chegou à MIAR em 2024, depois de ter sido violentamente atacado por outros gatos. Tinha resultados positivos para FIV e FeLV e, antes de chegar até nós, chegaram a ponderar a sua “eutanásia” apenas por ser positivo a FeLV. Sim, leram bem. O António Augusto estava assintomático e, ainda assim, a possibilidade de lhe retirar a vida foi colocada em cima da mesa. Até quando teremos de continuar a lutar contra este preconceito? Até quando um resultado positivo vai continuar a pesar mais do que a própria vida de um animal?
Quem conheceu o António Augusto sabe como era difícil aceitar que a sua vida pudesse ter terminado daquela forma. Era um gato extraordinariamente meigo, brincalhão, cheio de vida e com uma enorme necessidade de companhia. Um animal que tinha tanto para viver e que quase foi privado dessa oportunidade por causa de um resultado positivo.
Foi a Anabela quem o acolheu. E que sorte teve ele! A Anabela foi uma FAT extraordinária, que lhe dedicou tempo, cuidados, paciência e muito carinho. Para ela era o Gugu, e depressa se tornou impossível não gostar daquele gato tão doce e tão desejoso de atenção.
O problema é que a Anabela tinha duas gatas já idosas, pelo que era necessário mantê-los separados. E o Gugu não gostava nada daquela situação. Miava baixinho, tentava abrir a porta e procurava constantemente companhia. A Anabela fazia tudo o que podia para compensar essas limitações, mas sabíamos que ele precisava de uma casa onde pudesse estar perto das pessoas sempre que quisesse.
Durante meses procurámos essa casa. Fizemos apelos, pedimos partilhas, voltámos a publicar. O António Augusto tinha tudo para fazer alguém muito feliz, mas carregava dois resultados positivos que, para demasiadas pessoas, pareciam apagar todas as suas qualidades.
Foi então que apareceu a Júlia, em maio de 2024. E o nosso Gugu passou a ser o Bojack.
A Júlia foi-nos enviando fotografias e contando como estavam a correr as coisas. E era tão bom receber aquelas notícias! O gato que tanto procurava companhia tinha finalmente alguém só para ele. E a Júlia, por seu lado, tinha encontrado um companheiro que rapidamente passou a ocupar um lugar enorme na sua vida.
A ligação entre os dois foi muito especial. Via-se nas fotografias, na forma como o Bojack se aninhava junto dela, na tranquilidade com que dormia, na confiança que tinha naquela pessoa que passou a ser a sua família. Não era preciso perguntar se estava feliz. Bastava olhar para ele.
Foram mais de dois anos juntos. Mais de dois anos de uma vida boa, com cuidados, conforto, brincadeiras, sestas ao sol e, acima de tudo, muito carinho. O Bojack não passou esses anos à espera de adoecer. Passou-os a viver, como qualquer gato deve poder viver.
Em setembro, a sua saúde deteriorou-se gravemente, tendo surgido a suspeita de uma neoplasia. Sabemos que a FeLV está associada a um risco acrescido de determinados tumores, mas também os gatos negativos desenvolvem doenças neoplásicas. Não sabemos se, no caso do Bojack, a infeção teve alguma influência. O que sabemos é que, até então, tinha vivido mais de dois anos com uma excelente qualidade de vida.
O Bojack acabou por falecer. E a Júlia perdeu um companheiro a quem estava profundamente ligada. A dor de uma perda destas não se mede pelo número de anos que passámos juntos. Mede-se também pelo lugar que aquele animal ocupava na nossa vida, pelos hábitos que criámos com ele, pela sua presença nos pequenos momentos de todos os dias. E sabemos que o Bojack deixou um vazio enorme.
É precisamente por isso que esta história merece ser contada. Porque, se em 2024 tivessem avançado com aquela “eutanásia”, o António Augusto nunca teria conhecido a Júlia. Nunca teria tido a oportunidade de viver aqueles anos numa casa onde era tão querido. E a Júlia teria sido privada de uma relação que, apesar de ter terminado cedo demais, lhe deu tanto.
Um gato positivo a FeLV não é um gato à espera de morrer. É um gato que está vivo e que merece viver. Pode permanecer assintomático durante anos, ter uma boa qualidade de vida, criar laços extraordinários com as pessoas e ser tão feliz como qualquer outro. A doença pode vir a manifestar-se, é verdade. Mas quantos gatos negativos, aparentemente saudáveis, não acabam também por desenvolver doenças graves? Nenhum de nós sabe quanto tempo terá com os animais que adota.
E é aqui que entram os nossos adotantes especiais. A Júlia não fez uma adoção por pena. Escolheu o António Augusto, afeiçoou-se a ele, partilhou a vida com ele e esteve presente quando as coisas se tornaram difíceis. Não lhe prometeu uma vida longa, porque ninguém pode fazer essa promessa. Deu-lhe algo muito mais importante: uma vida em que foi amado.
Temos a felicidade de conhecer outras pessoas assim, que não deixam que a idade, uma doença ou um diagnóstico decidam, por si só, o valor de uma vida. Pessoas que sabem que uma adoção pode trazer preocupações e despedidas dolorosas, mas que também sabem quanto podemos receber de um animal a quem damos uma oportunidade. E queremos contar mais histórias destas, porque estes adotantes merecem o nosso reconhecimento.
À Anabela, que acolheu o António Augusto numa fase tão difícil e que foi muito mais do que uma família de acolhimento, obrigada. Sabemos o quanto gostavas do teu Gugu, o cuidado que lhe dedicaste e como desejavas vê-lo feliz numa família definitiva. Também esta história é tua, porque sem o teu trabalho e a tua dedicação talvez nunca tivesse sido possível chegar até aqui.
À Júlia, obrigada por teres escolhido o Bojack e, sobretudo, pela vida que lhe deste. Sabemos o quanto ele signif**ava para ti e gostaríamos muito que tivessem tido mais tempo juntos. Mas também sabemos que, se pudesses voltar atrás, voltarias a escolhê-lo, mesmo conhecendo o desfecho. Porque o amor que partilharam não desaparece com a dor da despedida, nem perde importância por ter durado menos do que desejávamos.
E ao nosso António Augusto, Gugu da Anabela, Bojack da Júlia, f**a a saudade e a alegria de termos conseguido encontrar quem te amasse tanto.
Houve quem, em tempos, achasse que a tua vida podia terminar por causa de um resultado positivo. Ainda bem que não terminou. Havia tanto para viver, tanto carinho para receber e uma Júlia à tua espera, sem que nenhum dos dois soubesse.
E valeu a pena. Cada dia, cada mimo, cada momento que tiveram juntos. ❤️