11/09/2026
O valor que damos aos animais
Há acontecimentos que não terminam quando as chamas se apagam.
O incêndio de Agrela foi um deles.
Estive lá como médica veterinária voluntária. Vi animais em sofrimento, vi vidas que podiam ter sido salvas e vi, de perto, aquilo que nenhum profissional de saúde animal deveria ser obrigado a esquecer.
Mais tarde, fui testemunha em tribunal.
E assisti à absolvição de todos os arguidos.
Mas talvez o que mais me tenha marcado não tenha sido apenas o desfecho judicial. Foram as palavras alegadamente proferidas durante o julgamento: a ideia de que aqueles animais estariam melhor ali do que num apartamento.
É difícil ouvir isto depois de ter estado perante animais a morrer.
Porque, quando aceitamos que seres vivos podem ser mantidos em condições indignas, que o sofrimento animal pode ser relativizado e que a responsabilidade pode simplesmente desaparecer quando a tragédia acontece, estamos a dizer muito mais sobre nós próprios do que sobre os animais.
Os animais não são coisas. Não são objetos. Não são descartáveis. E não são vidas de segunda categoria.
São seres sencientes, capazes de sentir dor, medo, stress e sofrimento, mas também confiança, vínculo e bem-estar.
Como sociedade, gostamos de pensar que evoluímos. Construímos leis, instituições, hospitais, tecnologia. Mas a evolução de uma sociedade também se revela na forma como trata aqueles que não têm voz para exigir os seus próprios direitos.
E, nesse aspeto, ainda temos muito para evoluir.
Não basta indignarmo-nos quando acontece uma tragédia. Não basta prestar cuidados depois do desastre. Não basta lamentar as mortes.
É preciso prevenção. É preciso fiscalização. É preciso responsabilização. É preciso reconhecer que garantir condições dignas aos animais não é um luxo nem uma questão de sentimentalismo — é uma obrigação ética.
Na nossa profissão, lidamos diariamente com as consequências da negligência, do abandono e da falta de conhecimento. Muitas vezes somos nós, médicos veterinários, que f**amos com a tarefa de tentar reparar aquilo que alguém não preveniu.
Mas há coisas que nenhum veterinário consegue reparar.
Uma vida perdida não pode ser tratada como um dano colateral.
Os animais que morreram em Agrela não são apenas um episódio do passado. São um lembrete incómodo de que o valor que atribuímos à vida animal ainda depende demasiado das circunstâncias, da conveniência e, tantas vezes, da capacidade que essa vida tem de fazer ouvir a sua própria voz.
Eles não tinham voz.
Nós tínhamos.
E continuamos a ter.
Que nunca nos habituemos a estas histórias. Que nunca aceitemos como normal aquilo que não deveria ter acontecido. E que, enquanto profissionais e enquanto sociedade, continuemos a exigir que o bem-estar animal seja tratado com a dignidade e a seriedade que qualquer vida merece.
Porque a forma como tratamos os animais diz muito sobre quem somos. E ainda temos muito a aprender.