03/09/2026
Hoje emocionei-me numa consulta.
E talvez isto não pareça nada, mas para mim é muito.
Já houve outras consultas em que me emocionei com histórias que me tocaram profundamente, palavras que ficaram comigo, momentos em que senti vontade de chorar.
Mas escondi.
Contive a expressão, engoli as lágrimas, respirei fundo e continuei como se nada estivesse a acontecer.
Porque, algures no caminho, aprendi que um psicólogo não deve mostrar emoções, que temos de ser sempre neutros, controlados, imperturbáveis.
Como se sermos bons profissionais significasse manter sempre a expressão neutra, a voz controlada ou os olhos secos.
Mas eu não acredito nisso e hoje dei por mim a pensar: porque não?
Não acho que o nosso papel seja despejar as nossas emoções em cima de quem está à nossa frente. Nem acho que uma consulta deva transformar-se num espaço em que o paciente sente que tem de cuidar de nós.
Mas também não acredito que, para sermos bons profissionais, tenhamos de deixar de ser humanos.
Eu posso emocionar-me com a história de alguém e continuar a estar inteira naquela sala.
Posso sentir sem fazer daquilo que sinto o centro da consulta.
Posso deixar que alguém perceba que aquilo que me está a contar me tocou, sem lhe retirar espaço para sentir aquilo que é seu.
Acredito que há uma diferença enorme entre sermos inundados pela emoção do outro e permitirmo-nos ser humanos perante aquilo que o outro nos confia.
Eu não chorei pela minha história.
Não chorei para que ela cuidasse de mim.
Não chorei para tornar aquele momento sobre mim.
Emocionei-me porque estava ali, com ela, a testemunhar uma coisa que sabia o quanto tinha sido desejada, mas também o quanto tinha sido temida.
Talvez tenhamos confundido demasiadas vezes profissionalismo com ausência de emoção.
E saber reconhecer o que sentimos, saber o que fazer com isso e, ainda assim, continuar a estar ali para o outro, é ser profissional.
Talvez um psicólogo não tenha de ser uma parede para ser um lugar seguro.
Talvez possa ser humano também.