09/06/2026
Fazer o Caminho de Santiago com o luto tão presente é uma experiência estranha.
Dizes a ti própria que vais pela paisagem, pelo desafio, pela aventura. Mas a certa altura percebes que também vais porque tens saudades de alguém.
E fazes quilómetro atrás de quilómetro porque uma pequena parte de ti acredita que, se te cansares o suficiente, se levares o corpo suficientemente longe, talvez consigas tocar em alguma coisa que a vida normal já não alcança.
E, de certa forma, consegues.
Não porque encontres respostas no fim de uma subida. Mas porque chega uma altura em que os pés têm bolhas, as pernas doem, os ombros pesam e já não sobra muito que não doa. E quando o corpo deixa de conseguir carregar tudo sozinho, vais buscar força a sítios que nem sabias que existiam.
Houve dias em que cada quilómetro pareceu uma má ideia e arrependi-me de ir. Não pelas distâncias nem pelo desnível, mas porque o Caminho tem a capacidade de arrancar as distrações todas e deixar-nos frente a frente com aquilo que temos andado a carregar. E nem sempre estamos preparados para isso.
Mas continuámos… Com calor, com cansaço, com saudades e, muitas vezes, com a Bear às costas. E curiosamente uma das melhores partes do Caminho foi essa. Saber que, com algum esforço, lhe conseguimos mostrar sítios onde ela nunca teria chegado sozinha.
Agora f**am as bolhas nos pés, os músculos cansados e as fotografias. E f**a também a esperança tranquila de que as pessoas e os animais que perdemos nos tenham acompanhado nas subidas mais difíceis.
Porque houve momentos em que o corpo já não tinha muito mais para dar. E mesmo assim continuámos a avançar.
E há uma beleza dolorosa nisso. Dar por ti a atravessar montanhas, aldeias e estradas intermináveis enquanto sentes falta de alguém em cada passo. Saber que não os vais voltar a ver, que nenhuma chegada muda isso, e ainda assim continuar.
Porque às vezes amar alguém depois da sua partida é exatamente isto: seguir caminho com um vazio ao lado, tão real como qualquer companheiro de viagem. E, mesmo com o coração partido, encontrar forças para dar mais um passo. E depois outro.