15/09/2026
Dalquinha — A Mais Velha:
Alfaiate, Mestra do Couro e Fazedora de Charque.
A mais velha das irmãs merece ser contemplada com a atenção especial que sua singularidade exige.
Dalquinha era alfaiate — e esse detalhe, aparentemente simples, é na verdade extraordinário. No sertão cearense de 1945, a costura feminina era comum — as mulheres costuravam roupas da família, faziam renda, bordavam. Mas a alfaiataria — o ofício de cortar e costurar roupas masculinas, com sua técnica específica, seus padrões rigorosos, sua exigência de precisão nos ombros, nas lapelas, nas calças — era um campo quase exclusivamente masculino.
Dalquinha havia penetrado nesse território e o dominava. Ela costurava para homens — para os trabalhadores da fazenda, para os vizinhos, para os homens da região que precisavam de uma roupa de festa, de um terno para o casamento do filho, de uma calça bem cortada para ir à feira de Sobral. Num mundo onde a roupa boa era escassa e cara,
Dalquinha era a pessoa que tornava possível a dignidade de se vestir bem mesmo no sertão.
Mas Dalquinha guardava ainda outros dois saberes — raros, ancestrais, profundamente sertanejos — que a tornavam uma figura única na sua comunidade.
O primeiro era o curtimento do couro. Arte que vinha dos tempos da "civilização do couro" do Nordeste colonial — quando o boi alimentava, vestia, calçava e equipava o sertanejo de cima a baixo. Curtir o couro exigia conhecimento preciso: saber escolher o animal certo, saber preparar as cascas de árvores tanantes da caatinga, saber o tempo exato de cada etapa, saber quando o couro estava pronto para virar sandália, cangalha, gibão, bolsa, correia.
Numa fazenda de 500 hectares onde o gado era a espinha dorsal da economia, Dalquinha transformava o que o boi deixava — além da carne e do leite — em objetos de uso e de valor duradouro.
O segundo era o charque. Fazer charque no sertão cearense não era apenas uma técnica culinária — era um ato de sobrevivência e de previdência.
Era a arte de preservar a carne do boi abatido através do sal e do sol, transformando o que pereceria em poucos dias numa reserva alimentar que durava meses — exatamente o que uma família numerosa precisava para atravessar os tempos de seca e de escassez.
Dalquinha sabia escolher os cortes certos, sabia a quantidade precisa de sal, sabia estender a carne no varal sob o sol do sertão, sabia quando estava no ponto — nem crua, nem ressecada demais. Sabia transformar o gado da fazenda em alimento que garantia que as pessoas da casa paterna nunca passariam fome, mesmo nos anos em que o açude secava e a caatinga virava cinza.
Dalquinha dominava, assim, o ciclo quase completo do boi sertanejo: a carne que virava charque para alimentar, o couro que virava utensílio para equipar, a roupa que ela cortava e costurava para vestir. Carregava dentro de si a memória técnica de uma civilização inteira — aquela que o sertão havia construído ao longo de séculos, antes que o mundo moderno chegasse com suas fábricas e seus produtos prontos. E guardava esse saber com a naturalidade de quem nunca parou para perceber o quanto era raro e precioso.
Dalquinha era, à sua maneira, uma enciclopédia viva do saber sertanejo — a mais velha das irmãs, a que havia chegado ao mundo primeiro e que havia acumulado, ao longo dos anos, os saberes mais fundamentais e mais antigos que aquela terra tinha para ensinar