07/02/2026
Quando a inversão de valores começa em casa
Muito se fala sobre a inversão de valores que marca a política, as instituições e o comportamento social contemporâneo. Costuma-se atribuir esse fenômeno a governos, ideologias ou crises econômicas. No entanto, essa leitura, embora confortável, é incompleta. A inversão de valores que hoje se manifesta no espaço público não nasce no Estado nem nas disputas políticas. Ela começa dentro de casa.
No cotidiano, essa contradição se revela de forma quase banal. Cobra-se respeito fora, mas pratica-se a indiferença dentro. Exige-se civilidade no ambiente profissional, enquanto se negligencia o cuidado com os próprios familiares. Investe-se continuamente no conforto pessoal, em reformas, em consumo recorrente, enquanto pais envelhecem em condições precárias, muitas vezes invisíveis até para aqueles que deveriam ser os primeiros a ampará-los.
Esse comportamento não é apenas uma questão moral individual; trata-se de um sintoma social mais amplo. O abandono afetivo e material de idosos, cada vez mais frequente, não surge do nada. Em muitos casos, ele é consequência direta de escolhas feitas no passado, quando a formação familiar foi tratada como algo secundário, delegável ou até dispensável.
Durante décadas, muitos abriram mão da presença efetiva na educação dos filhos. Ser pai e ser mãe passou a significar apenas prover financeiramente, enquanto a formação do caráter, o estabelecimento de limites e a transmissão de valores foram terceirizados para a escola, para o Estado ou para terceiros. O resultado desse processo é um vazio formativo que se manifesta, mais cedo ou mais tarde, em relações frágeis, laços rompidos e responsabilidades recusadas.
Educar vai muito além de garantir sobrevivência material. Educar é formar consciência, senso de dever, empatia e responsabilidade. Quando essa missão é negligenciada, cria-se um abismo entre gerações. E esse abismo não afeta apenas a família; ele se projeta sobre toda a sociedade.
Essa constatação não se baseia apenas em observação teórica. Ao longo da minha atuação como presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente e na participação direta na criação de Conselhos Tutelares, foi possível acompanhar de perto um padrão recorrente: pais e mães que abriram mão da paternidade e da maternidade responsáveis, transferindo para o poder público funções que deveriam ter sido exercidas no lar.
O Estado passou a ser visto como substituto da família. A escola, como corretora de falhas domésticas. O sistema social, como reparador de ausências afetivas. Essa inversão de papéis gerou consequências profundas. Hoje, diante do avanço da criminalidade juvenil, do envolvimento precoce com dr**as e da violência urbana, a reação mais comum é cobrar respostas do Estado. Pouco se discute, no entanto, o que foi feito — ou deixado de fazer — na origem do problema.
Muitas famílias foram constituídas sem planejamento, sem compromisso com o futuro, por impulso ou conveniência momentânea. A formação familiar deixou de ser entendida como projeto e passou a ser tratada como circunstância. O custo dessa irresponsabilidade não é individual; é coletivo. Toda a sociedade paga a conta.
A inversão de valores, portanto, não pode ser analisada apenas sob a ótica política ou econômica. Ela é, antes de tudo, um reflexo cultural e social de escolhas feitas ao longo do tempo, especialmente no âmbito familiar. Ignorar essa origem é insistir em tratar os efeitos, enquanto as causas permanecem intocadas.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Diversos países enfrentam crises semelhantes, marcadas pela relativização de valores, pela fragilização da autoridade familiar e pela transferência excessiva de responsabilidades ao Estado. Modelos ideológicos que minimizaram o papel da família e supervalorizaram a tutela estatal contribuíram para esse cenário, cujos efeitos hoje são visíveis em diferentes partes do mundo.
Nenhuma política pública, por mais bem estruturada que seja, consegue substituir plenamente a presença responsável dos pais, o exemplo cotidiano e a formação ética construída no ambiente familiar. Quando essa base falha, todo o sistema é pressionado: escolas, serviços sociais, segurança pública e o próprio Estado.
Discutir inversão de valores exige honestidade intelectual. Exige reconhecer que a reconstrução social passa, necessariamente, pela reconstrução da responsabilidade familiar. Não se trata de negar o papel do Estado, mas de compreender seus limites. Há responsabilidades que não podem ser delegadas sem consequências.
A sociedade que hoje enfrenta esse cenário é, em grande medida, o reflexo das escolhas feitas no passado. O futuro, por sua vez, dependerá da disposição coletiva de assumir responsabilidades que não podem mais ser adiadas. Porque, no fim, toda crise social é também um espelho dos lares que a antecederam.
Ouvidoria Popular
Mário Plaka